A prostituição do software

A prostituição do softwareSaudações, leitores. Neste artigo, focarei um pouco mais no meu senso crítico e irei abordar um assunto nada agradável para nós, desenvolvedores. Trata-se da prostituição de sistemas informatizados, desenvolvidos e vendidos por profissionais “recém-ingressados” no mercado de softwares.

 

Desenvolver software virou “modinha”. Qualquer sujeito que se forma no curso técnico de informática acha que já entende as práticas de Engenharia de Software e podem sair desenvolvendo sistemas sem algum tipo de planejamento. Mal sabem que para desenvolver um software funcional e com boa qualidade, é preciso saber muito mais do que uma simples conexão com banco de dados.
Um bom desenvolvedor tem ciência de que o desenvolvimento de um software envolve mais do que linhas de código e visual bonitinho. Há toda uma engenharia de planejamento, elaboração, modelagem do banco de dados, arquitetura do software, padronização de código e testes intensivos. O não cumprimento de algumas dessas fases pode comprometer a qualidade do software e causar imprevistos para o usuário.

Já ouviu falar em dívida técnica do software? Não? Trata-se de uma dívida que o desenvolvedor assume quando não cuida do software de maneira profissional, justamente pelo motivo que mencionei no parágrafo anterior.

Imagine um programador que acabou de desenvolver um software para uma farmácia. Os usuários começam a utilizá-lo e, depois de algumas semanas, notam a necessidade de incluir novas funcionalidades. Ao invés de montar um plano de manutenção (com análise de impacto, refatoração de código e novos testes), o desenvolvedor faz um “remendo” no software para atender a necessidade do usuário a curto prazo.
Aos poucos, o software vai se tornando uma colcha de retalhos e a dívida técnica vai aumentando, dificultando cada vez mais a manutenção. Em determinado momento, o desenvolvedor terá que refazer o sistema completamente ou abandoná-lo por não conseguir mais mantê-lo, ou melhor, não conseguir “pagar” a dívida técnica. E acredite, atualmente isso acontece com muita frequência.

Você deve conhecer aquela famosa historinha do “Ah, faz um ‘sisteminha’ simples aí…”, não é?
Pois bem, muitos desenvolvedores (sim, muitos!) caem na ilusão de que o tal “sisteminha” irá deixá-los ricos da noite para o dia. Começam a desenvolver o sistema baseado em poucas – ou nenhuma – experiência de desenvolvimento, copiando vários trechos de código da internet para adaptar ao software. Nem ao menos se esforçam para tentar interpretar o código e compreender o que ele faz. E mais, quando ocorre algum erro nesses códigos copiados, saem feito doidos nos fóruns de discussão pedindo ajuda.

Por fim, quando termina de desenvolver o software, o sujeito o vende por 300,00 reais para o cliente.
300,00 reais??! É menos que um salário mínimo! Esse é o valor que um programador deve ganhar por semana, e não por um sistema desenvolvido! É impressionante: o indivíduo gasta 700,00 de mensalidade na faculdade pra depois vender softwares por 300,00! Isso que eu chamo de desconsideração com a profissão e desvalorização do trabalho.

Consequentemente, os bons softwares, desenvolvidos por verdadeiros profissionais, são ignorados e descartados por causa do valor considerado alto, pois sempre haverá um “sisteminha” mais barato feito por alguém que supostamente irá atender a regra de negócio do cliente. Quer dizer, agora fica difícil: deve-se vender software por um preço mais baixo (um absurdo) ou simplesmente não vendê-lo, pois os usuários não aceitarão o valor.

Já não bastasse essa situação, ainda há uma concorrência no meio dessa prostituição do software. Considerando o mesmo exemplo acima (do sistema vendido por 300,00 reais para uma farmácia), imagine que outro desenvolvedor apareceu na história e ofereceu um software “melhor” por um valor mais baixo: 200,00. O cliente, claro, confia no desenvolvedor, se interessa na oferta e aceita.
Eis que alguns dias depois, o sobrinho do dono da farmácia se forma no curso de Técnico em Informática e propõe desenvolver um software por míseros 100,00.  Resultado: todo mundo sai perdendo, inclusive o dono da farmácia, que provavelmente terá um software com qualidade comprometida. Na realidade, parece mais um leilão de softwares.

 

Aproveitando o exemplo, vou relatar uma história semelhante que ocorreu com um professor que conheci na época da faculdade. Há 7 anos, ele foi convidado para desenvolver um software completo para um supermercado, com gestão de estoque, cadastro de clientes, fornecedores, produtos, tributações, controle financeiro e sistema fiscal. Bastante coisa, não é?
Depois de pensar sobre o valor, voltou ao supermercado para falar com o gerente e apresentar a proposta de valor: adesão de 5.000,00 e mensalidades de 500,00. Pra ser sincero, eu acho que ele ainda cobrou barato.
Pois bem, o gerente soltou uma gargalhada e o chamou de “louco”. Disse que não pretendia gastar mais do que 500,00 em um software. Isso mesmo: 500,00!
Por quê isso aconteceu? Simples. No mínimo, algum programador desenvolveu um software pra supermercado e deve ter cobrado 500,00. Logo, o gerente tomou conhecimento e consolidou essa ideia de que um sistema desse porte não deveria custar mais do que isso.
Percebeu onde está o problema?

Programação é um trabalho difícil, que exige concentração, raciocínio e lógica. Os profissionais dessa área deveriam ser muito mais valorizados do que são hoje. Porém, com essa inclusão de programadores recém-formados querendo ganhar dinheiro fácil, o desenvolvimento de software foi desvalorizado. Aqui deixo uma observação: eu não estou desmerecendo os estudantes que acabaram de se formar, só critico a questão de comercializar softwares fora dos padrões de qualidade e ainda por um preço insignificante.
Agora as pessoas pensam que software comercial é como um produto na prateleira de uma lojinha de informática e dificilmente irão pagar o valor que o software realmente custa. Enquanto isso, acostume-se em ouvir essa frase:

“Por quê esse valor tão caro? O outro desenvolvedor fez o sistema para o meu amigo por 100,00…”

Essa história é velha…

 

Fico por aqui, leitores!
Até a próxima.


 

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13 comentários

  1. Realmente o legado dos “picaretas” é de longa data. Há tempos e em qualquer lugar você ouve falar de softwares que fazem o que você precisa a preço de banana… mas a que ponto? Muitos desses “profissionais” não tem experiência de mercado, não conhecem boas práticas e tecnologias e não podem fornecer nem mesmo um suporte técnico de qualidade. Ao comprar estes softwares, os quais chamo de “genéricos”, o cliente não só está assumindo o risco de pagar a mais por qualquer nova funcionalidade ou “pagar” pelo preço que pagou.
    Ao comprar ou alugar um software pense no seguinte:
    1. Faz o que eu preciso e 20% mais?
    2. A empresa é séria e se preocupa com a qualidade?
    3. A empresa tem conhecimento no meu ramo de atividade?
    Veja que sempre menciono EMPRESA e know-how (conhecimento) se você paga de meio salário mínimo a vinte mil reais em um software, vale a pena pensar no trabalho que alguém teve para acumular experiência, mão de obra, tecnologia e construir algo que seja realmente útil e seguro para sua organização.

    1. Ótimo comentário, Marcos! Obrigado por expor sua experiência e ressaltar pontos importantes sobre este assunto!
      Concordo com você em todos os aspectos. Acredito que esses “picaretas” ainda vão perdurar por muito tempo no mercado de TI, infelizmente. E quem acaba perdendo com isso é o próprio cliente. Quando ele notar o desfalque da qualidade no produto e a ineficiência de suporte técnico, talvez seja tarde demais.

  2. A mais pura realidade, e a cada dia desvaloriza mais o valor do programador/desenvolvedor.
    Mais uma vez ótimo post.

    []s

  3. Concordo com tudo o que foi dito e acrescento, isso também é culpa das escolas técnicas que ministram cursos mal estruturados. Já fiz vários cursos técnicos na área e pouco, ou quase nada, é falado sobre isso. No mínimo, deveriam orientar melhor os alunos no sentido de instruí-los de como fuinciona a engenharia do software, sua vida útil, custos de horas trabalhadas, etc., mas isso não acontece. A qualidade dos professores já deixa a desejar, imagina o resto. Esse cenários que vemos hoje é reflexo dessa má estrutura não só em cursos técnicos mas também em cursos superiores.

    1. Exatamente, Paulo, concordo com o seu comentário. Acredito que seria interessante se eles abordassem o conceito de Qualidade do Software nesses cursos, envolvendo a importância de requisitos funcionais e não funcionais.

  4. Caro André, seu post falou a mais pura verdade, concordo com você em todos os aspectos, porém, a todo momento, empresas de desenvolvimento de softwares que trabalham utilizando todas as metodologias de desenvolvimento e cunprindo todos os ciclos da engenharia de software, estão simplesmente quebrando por não conseguir preços competitivos. O fato é que existe mercado para grandes e pequenas empresas de desenvolvimento, e sempre é possível desenvolver um bom trabalho com um preço justo e uma boa analise de requisitos iniciais de forma que o cliente fique satisfeito. O importante é sempre deixar claro ao cliente que o preço é proporcional a escalabilidade do sistema.

  5. Infelizmente não existe um sindicato ou lei que ampare os Profissionais de TI, ou seja Biólogos, Engenheiros de outras áreas podem desenvolver sistemas sem problema nenhum. Agora desenvolva um Projeto na área de Engenharia Civil, Mecânica e outras para vocês verem o que acontece..Podem ser presos por exercício ilegal da profissão. Sou estudante de TI e o que mais me desagrada é esta situação, e para piorar eu pago uma disciplina de estágio na minha faculdade e sou obrigado a estagiar de graça dentro da lei que só prejudica o aluno e para a terrorizar ainda mais o estágio pode ser prorrogado e aceitamos na “esperança de um emprego”.
    Existe a LEI No 4.950-A, DE 22 DE ABRIL DE 1966, que ampara os “INICIANTES NOS CURSOS DE ENGENHARIA” com piso de 6 salários mínimos por 6 horas.
    Desculpem o texto longo mais não poderia deixar de expressar minha opinião a respeito e minha indignação na área de TI no qual estarei “Trabalhando”, pois qualquer zé mané pode ser programador, analista, etc.. e como disse um colega que desistiu do curso: “NO FINAL VOCÊ SEMPRE ACABA NAS MÃOS DO USUÁRIO”.

    1. Olá, Cláudio! Concordo plenamente com você a respeito da existência de um sindicato na área de TI. Conheço muitas profissionais indignados com essa situação e, diga-se de passagem, também já fui vítima desse cenário. Infelizmente existem várias pessoas que, na busca de uma experiência rápida, ingressam no mercado de trabalho por qualquer remuneração e isso afeta a valorização justa de nossas profissões. Obrigado por deixar o comentário, e boa sorte!

  6. ANDRE, CADA DIA QUE PASSO FICO MAIS SEU FÃ!!!
    Mas neste tópico, gostaria de comentar sobre cidades pequenas… e micro empresas… Na minha cidade por exemplo, o C Plus é um sistema vendido a 800,00 e com mensalidade de 75,00/mes… isso um software de grande empresa que é VVS… ai junta mais meia duzia de “programadores” que vendem softwares a 100,00/mes…para poder competir com isso. Acredito que o valor, é resultado tambem da cultura da cidade e região. Onde temos pessoas que chegam e pedem um “programinha”…

    1. Olá, Benedito! Obrigado novamente pelo feedback.
      Você ressaltou um ponto importante sobre valores de software. De fato, os valores também estão relacionados com o parque de desenvolvimento de uma região. Eu vim de uma cidade bem pequena, no interior de São Paulo, onde os desenvolvedores também cobram um valor relativamente baixo por um software. Já em uma capital, o valor do mesmo software pode ser de 4 ou 10 vezes maior. Agora imagine a consequência se esse desenvolvedor for para uma capital e cobrar o mesmo valor que ele cobraria em uma cidade pequena? Este é um dos fatores que causam a prostituição do software. Na realidade, o profissional deve analisar e reconhecer o valor do seu serviço conforme a região que estiver, senão haverá um “conflito” de valores.

  7. Muito bom o seu POST André, mas enxergo os “Sobrinhos” por um ponto de vista diferente. Os sobrinhos tem um público de clientes diferente dos bons profissionais, não? Afinal, qual o programador experiente de hoje que nunca começou fazendo “sisteminhas”? Eu não vejo problema nisso. O contratante do sobrinho tá mais preocupado se o sistema dele vai imprimir cupom de venda/fiscal, se irá exportar um determinado arquivo para Receita Federal e etc,.. Esse perfil de clientes não enxerga necessidades em expandi-lo. Ele enxerga o sistema como um automatizador de tarefas repetidas e não como uma ferramenta que o auxilie a ganhar mais dinheiro. Isso é uma questão de visão. Veja se não é verdade…. Normalmente, são pequenos empresários que estão começando um negócio e que, dificilmente, entendem o principal objetivo da Tecnologia da Informação (TI), que é oferecer soluções que agreguem valor ao negócio, onde as informações estejam integradas, e que gerem conhecimento da própria empresa para ele(dono) tomar decisões. A maioria não tem essa mentalidade. Conforme os problemas na empresa dele surgem, ele vai ligando para o “cara da programação” fazer um “sisteminha” que os resolvam.

    Já empresas maiores, sabem que precisam de algo mais complexo porque querem expandir. Não necessariamente sabem do que precisam em seu negócio. Mas sabem o que querem e que precisam de um profissional/empresa experiente que não seja apenas empilhador de código, mas sim que seja capaz de pensar no negócio dele como um todo a fim de encontrar soluções para fazer ele ganhar mais $$$$. Penso que para um programador/Analista/consultor/desenvolvedor (como queira chamar rs) conseguir arrancar um dinheiro digno da empresa/contratante, só será possível se fizer o contratante enxergar possibilidades de ganhar mais dinheiro. Empresários só liberam o bolso se for para ganhar mais dinheiro, não é? Penso que a pessoa tem que ser muito mais que um programador. Tem que ir além. E fazer o marketing do produto, vejo como fundamental. Tem que convencê-lo que você não irá entregar um sistema na linguagem XPTO, mas uma solução que irá agregar valor ao negócio com possibilidades de ganhos de R$X,xx e, portanto, fazer valer a pena o investimento. Acredito que sobrinhos sempre existirão, como também sempre haverá público para eles. Agora, não vejo isso uma ameaça para profissionais experientes e que tenham, sobretudo, visão de negócio. Vejo que há mais uma carência de discernimento desses bons profissionais para identificar o público alvo correto a ser atingido.

    1. Olá, Herbeson!
      Em primeiro lugar, agradeço fortemente pelo seu ponto de vista! Mesmo que ligeiramente oposto ao do artigo, a sua contribuição é de grande valor!
      Pois bem, Herbeson, concordo que o segmento de clientes dos “sobrinhos” é diferente daqueles que contratam profissionais ou empresas experientes, porém, a minha contestação no artigo, na realidade, se resume no fato de alguns programadores sem experiências prévias ingressarem de forma autônoma no mercado de desenvolvimento de software, presenteando clientes com mil promessas do que um sistema sob demanda (de sua autoria) pode realizar. Isso, provavelmente, já afeta uma parcela de profissionais experientes. Vejo que, caso não houvesse esse advento de programadores, os empresários, por mais simples que fossem, procurariam empresas profissionais? Na verdade, não deixa de ser a mesma história da formatação de PCs: em uma das cidades que morei, as empresas de assistência técnica tiveram de baixar o valor da formatação de 120 para 70 reais devido aos técnicos em informática que surgiram em cena, oferecendo o mesmo serviço por 30 ou 40 reais.
      Portanto, mais uma vez, o objetivo do artigo foi questionar o profissionalismo no desenvolvimento de software. Assim como a área de saúde, por exemplo, os serviços de TI deveriam ser apropriadamente valorizados, divulgados e custeados, pois, como sabemos, não é uma atividade nada trivial. Quando esse grupo de programadores cobram valores míseros por softwares, além de desvalorizarem a si próprios, ofuscam o mercado de software. O parágrafo sobre o valor do software para o supermercado ilustra este cenário: uma empresa de desenvolvimento cobraria um valor justo de 5 mil reais pelo desenvolvimento, no entanto, a “prostituição” cravada por profissionais inexperientes levou o empresário a concluir que é um valor exorbitante, absurdo, fora de questão. Pensando dessa forma, podemos, talvez, afirmar que há um impacto generalizado causado por este efeito.

      Grande abraço!

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