Desenvolvedores devem ser tratados como voluntários

Desenvolvedores devem ser tratados como voluntáriosHoje, deixaremos os assuntos técnicos de lado e discutiremos um tema motivacional. O objetivo desse artigo é apresentar uma perspectiva alternativa sobre o comprometimento dos desenvolvedores e a motivação que os leva a desempenhar um bom trabalho. Afinal, desenvolvedores desmotivados é um aspecto comum nas empresas de desenvolvimento, não é? Por quê?

Todo desenvolvedor inicia um novo emprego motivado. Caso contrário, ele nem teria se candidatado à vaga. Porém, o que faz um desenvolvedor desistir de uma empresa e procurar novas oportunidades? Para buscar a explicação, em primeiro lugar, vamos contextualizar o ambiente de trabalho…

Uma característica relativamente comum nas empresas de desenvolvimento de software é o prazo apertado, acompanhado da pressão no trabalho, cobranças e horas extras. Isso, por si só, já é desmotivador. Qualquer desenvolvedor que se submete a longas jornadas de trabalho tende a se sentir desconfortável com o trabalho e, consequentemente, com a empresa. Logo, começam as buscas por novas oportunidades. A empresa, para não perdê-lo, oferece benefícios ou promessas de promoção de cargo caso conclua o trabalho com sucesso. Isso geralmente é conhecido como “carrot and stick approach”, ou, traduzindo, a “abordagem da cenoura pendurada na vara”, conforme ilustra a imagem abaixo.

Abordagem da cenoura pendurada na vara

Essa imagem não traz nenhum aspecto positivo, não é? Se isso ocorre na empresa, há um problema, e dos grandes. Não é esse tipo de “incentivo” que levará o desenvolvedor a sempre realizar um trabalho satisfatório, simplesmente pelo fato de que não passa de um estímulo temporário.
A conversa aqui é outra. Falaremos, definitivamente, sobre motivação, no sentido literal da palavra.

Em primeiro lugar, atente-se ao fato de que o desenvolvedor comparece à empresa todos os dias e, na maioria das vezes, não é meramente para ganhar o salário no final do mês. O objetivo é fazer a diferença. Terminar a Sprint com todas as user stories movidas para a coluna “Done”. Bater no peito e garantir que o cliente ficará satisfeito com as novas funcionalidades corrigidas ou implementadas no software. Trata-se de uma questão de sentimento, e não de materialismo. Na realidade, é o mesmo sentimento de um voluntário que ajuda uma causa sem interesse próprio, mas, no caso dos desenvolvedores, é um ambiente corporativo.
Prometer aumentos não é a iniciativa correta. Incentivá-los por um tempo é fácil, mas mantê-los sempre incentivados é o grande desafio. Para que isso aconteça, é preciso que o desenvolvedor se sinta parte do objetivo principal da empresa.

Opa, mencionei a palavra “voluntário”! Faremos, então, uma reflexão. Como você trataria um voluntário?
Suponha que você esteja arrecadando fundos para ajudar uma causa e alguém se oferece para ser voluntário, fazendo o trabalho de divulgação da arrecadação nas mídias. Pois bem, já que essa pessoa, de bom agrado, se dispôs a ajudar, faríamos o possível para apoiá-la, não é? Forneceríamos recursos, informações e a atenderíamos sempre quando necessário. É assim que grupos de estudos são organizados, partidas de futebol são combinadas e festas são planejadas. Até mesmo aquele churrasquinho no final de semana depende de alguns voluntários para passar no supermercado para comprar os produtos. Todos esses exemplos demonstram pessoas que se prontificam porque gostam, ou melhor, porque sabem que, quando tudo estiver pronto, elas fizeram parte do processo.

Agora, tente encaixar esse conjunto de ideias em uma equipe de desenvolvimento. Se os desenvolvedores se comportassem como voluntários, dispostos e entusiasmados com os resultados, nem a user story mais “desagradável” seria párea para deixá-los desmotivados, afinal, o que importa é o sentimento de ter cumprido uma missão.
Tratar os desenvolvedores como voluntários significa empenhá-los para querer fazer o que eles têm para fazer, evitando pensamentos como: “Aaaah, eu vou ter que fazer isso? Pff… isso é chato pra caramba!”.
Na realidade, todos sabem que nunca haverá somente tarefas simples para realizar, mas, se os membros de uma equipe compreenderem que mesmo as tarefas enfadonhas são parte de um grande objetivo em comum, eles encontrarão motivação para realizá-las. Pode-se afirmar, então, que quando um desenvolvedor está desmotivado, significa que ele ainda não está se sentindo parte da solução.

Observe que tudo faz sentido. Desmotivação é a base da indisposição. Quer uma prova disso? A longo prazo, o custo de um desenvolvedor desmotivado será bem mais alto do que o custo de uma funcionalidade não implementada na versão do software.

Esse é o segredo. A empresa deve remover todos os obstáculos que causam desmotivação na equipe. Se uma funcionalidade é muito difícil de ser implementada, quebre-a em partes menores e compartilhe o trabalho com toda a equipe, de modo que não fique cansativo para ninguém. No entanto, é importante que as atividades também não fiquem “fáceis demais”, pois, assim como o trabalho excessivo, monotonia também é desmotivador. Desenvolver softwares é uma arte desafiadora que se torna gratificante quando conseguimos realizá-la com maestria. Isso produz uma sensação de conquista.

Além disso, é fundamental destacar a importância da entrega de valor e melhoria contínua, ao invés de cobrar métricas extensas, reuniões maçantes e cobranças diárias. Pressão causa desmotivação. Apontar a culpa também causa desmotivação. Ninguém mais consegue desempenhar um trabalho bem feito se não tiver o feeling de estar prestando um favor. Da mesma forma que nos comportamos como voluntários, gostaríamos de ser considerados como tais.
Importar-se com a vida pessoal de cada desenvolvedor também é primordial, pois, às vezes, a desmotivação pode ser externa. Portanto, se um desenvolvedor chegar atrasado, procure compreender o motivo, e não criticá-lo pela imprudência.

E, talvez, o mais importante: comemorar o sucesso, por menor que seja. Desenvolvedores devem sentir orgulho do próprio trabalho, principalmente quando os resultados são altamente positivos. Chamá-los para um almoço ou um happy hour são ideias já conhecidas, mas… quer saber mesmo? Muitas vezes, desenvolvedores sentem falta de um simples “parabéns” acompanhado de um aperto de mão. É o mínimo que se espera, e infelizmente é o que menos acontece.

E então, vamos apoiar essa sugestão? 🙂
Na próxima semana, mais um pouco de Clean Code! Abraço!


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6 comentários

  1. “Parabéns” Ótimo artigo isso serve não só para TI mas para cada empresa e para vida, desenvolver a arte de tornar o serviço voluntario e não obrigatório. Muito bom André .

  2. Bom artigo. Todo desenvolvedor deve se sentir motivado à alcançar objetivos que foram traçados. Na medida que esses objetivos vão aumentando não devemos nos desanimar. Como foi dito, desenvolver software é uma arte que precisa de motivação e paciência.

    1. Olá, Samuel!
      Exatamente. Além de terem objetivos, desenvolvedores também devem ser incentivados para fazer parte de um propósito principal, compartilhado com todos, no qual se aproxima conforme cada tarefa (ou missão) é cumprida. Isso que traz a motivação e comprometimento em uma equipe.

      Obrigado pela contribuição! Abraço!

  3. Parabéns pelo artigo, André. De fato as empresas não costumam valorizar seus empregados/colaboradores/funcionários/etc. é como se muitos dos empresários considerasse a mão de obra uma mera peça de um quebra cabeça, daquelas que nem desenho possui e que quase não faz diferença. O que eu quero dizer é que falta incentivo, não estou dizendo financeiro, mas sim como você mesmo disse: “…comemorar o sucesso, por menor que seja.”. Cada simples conquista, cada passo à frente deve ser comemorado e acima de tudo RECONHECIDO. Tenho visto reconhecimento de pessoas que nem ao menos fizeram seu máximo para alcançar um objetivo comum da equipe e isto desmotiva demais quem realmente se esforçou. “Trocam-se os peões, ficam os reis”.

    1. Fala, Marcão!
      Concordo com você, principalmente sobre a analogia com a peça de um quebra-cabeças (sim, eu gosto de analogias, rsrs)!
      Existe um termo que, ao meu ver, vem se tornando cada vez menos relevante nas empresas: a meritocracia. De nada adiantar esforçar-se para cumprir prazos, metas e objetivos se, ao final, não há um reconhecimento, por mínimo que seja. Grandes talentos estão sendo despediçados nas empresas por falta dessa retribuição.

      Muito obrigado pela contribuição, Marcos! Abraço!

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