Scrum: The Meet After

Scrum: The Meet AfterÀs vezes fico intrigado com a forma como alguns profissionais empregam as diretrizes das metodologias ágeis. Existem equipes que tomam a metodologia como base e criam novas versões dessas práticas, fugindo da originalidade das recomendações. As cerimônias do Scrum são um exemplo. Muitos realizam reuniões diárias (Daily Scrums) que duram mais de 15 minutos. Por quê?

Se você acessou esse artigo, deve estar interessado no que tenho para dizer. Que bom! Então, primeiramente, vou deixar algumas considerações.
O Desenvolvimento Ágil não é um padrão de desenvolvimento de software. Não é um passo a passo de como o gerenciamento das equipes e o processo de desenvolvimento devem funcionar em uma empresa. O Desenvolvimento Ágil é um conjunto de metodologias que viabiliza a comunicação, colaboração e centralização das tarefas através de princípios e práticas. Cada empresa tem a autonomia de adaptar essas diretrizes para combiná-las como o seu próprio perfil, trazendo, assim, os resultados esperados com a metodologia. Dito isso, é correto dizer que uma determinada empresa modela o Scrum em suas equipes conforme seus critérios de cultura corporativa, prazos e orçamentos.

Agora, considere uma empresa que, por conta dessa adaptação da metodologia, estendeu o tempo das reuniões diárias de quinze minutos para meia hora. Diferente do que eu mencionei no parágrafo anterior, isso, sim, é inadequado.

Qual é o problema disso? Você não acabou de dizer que o Desenvolvimento Ágil é adaptável?
Sim, é, mas é importante lembrar que, no alicerce dessa adaptação há práticas consolidadas, e as cerimônias são uma delas. Essas práticas consistem na base da metodologia e no motivo de sua popularidade no cenário de desenvolvimento de software. Então, qual o sentido de mudá-las?
Usando uma analogia, o Scrum representa uma engrenagem já com algumas peças montadas, permitindo que os gestores da empresa insiram as outras peças conforme necessário. Isso significa que, se removermos ou alterarmos uma peça originalmente já montada, essa engrenagem é modificada, então, o Scrum simplesmente deixa de ser Scrum.
Agora, fazendo uma comparação mais técnica, é o mesmo que o conceito de herança na Orientação a Objetos. Mesmo que uma classe seja derivada para adicionarmos novas características, é importante lembrar que alguns atributos, métodos e comportamentos são privados da classe base, evitando que alterações realizadas comprometam o seu funcionamento. Esse mesmo contexto pode ser aplicado à uma metodologia ágil.

Você está sendo radical! O fato de aumentar 15 minutos nas reuniões diárias significa que a empresa não está mais usando o Scrum?
Para responder essa pergunta, vou inverter os pólos e revelar onde está o erro. Os gestores estão tentando adaptar a metodologia à empresa, ao invés de adaptar a empresa à metodologia. É isso. Se o Scrum é uma engrenagem, então a empresa deve adequar suas peças para funcionar nesse novo mecanismo.
Pois bem, voltando ao assunto das reuniões diárias, a literatura do Scrum deixa bem claro o motivo de elas terem a duração de apenas 15 minutos. É uma reunião rápida, na qual todos os participantes ficam de pé e explicam, de forma sucinta e objetiva, o que fizeram no dia anterior, o que será feito no dia atual e os impeditivos que porventura existam. A ideia não é transformar a reunião diária em um centro de resolução de problemas ou um fórum de discussão. O propósito é disseminar o status atual do projeto, identificar impedimentos e priorizar as tarefas do dia de trabalho.

Por que algumas equipes aumentam esse tempo?
Opa, estamos chegando ao assunto deste artigo!
Algumas equipes estendem as reuniões diárias justamente pelo motivo que mencionei no parágrafo acima: os participantes tentam resolver conflitos, impedimentos e riscos durante essa reunião. Porém, na maioria das vezes, essa discussão só interessa a um único membro da equipe, ou seja, em uma equipe com seis membros, os outros cinco participantes ficam, na prática, ociosos, pensando: “Poxa, mas a duração da reunião não era 15 minutos?!” ou “O que eu tenho a ver com essa discussão nesse momento? Isso não é uma reunião de brainstorming e nem um Coding Dojo!”. Pessoal, pensar assim não é um descaso e nem arrogância. É coerência. O tempo que os desenvolvedores ficam ali, desviando os pensamentos enquanto a reunião não termina, é o mesmo tempo que eles poderiam (e deveriam!) estar desempenhando as atividades para atender os prazos.

E o que você sugere quando um impedimento é detectado na reunião diária?
Eu, não! Quem sugere é o próprio Scrum!
Durante a reunião diária, caso o Scrum Master identifique que seja necessário discutir os problemas ou codificações de um ou mais participantes, basta anotar estes itens em uma lista específica ou em uma coluna temporária no Kanban Board. Assim que a reunião diária terminar, apenas os membros envolvidos nessa lista permanecem com o Scrum Master para continuar as discussões até quando for necessário.
Conforme vocês devem ter lido no título, essa reunião que ocorre imediatamente após a reunião diária é conhecida como “The Meet After”. A finalidade é não permitir que o tempo da reunião diária seja extrapolado, prejudicando o tempo dos desenvolvedores e o trabalho pendente. Todos os participantes que não foram convocados para a The Meet After são liberados para continuar normalmente as respectivas atividades.

Agora, faça uma reflexão: é realmente necessário aumentar o tempo das reuniões diárias quando se tem a The Meet After? Ao invés de modificar as práticas do Scrum, é melhor dar uma olhada nas práticas complementares que a metodologia proporciona, não acham? 🙂
Bom, é por isso que exponho as minhas objeções quando tentam “personalizar” demais uma metodologia ágil. Como consequência, acabam por prejudicar os processos devido à uma adaptação inadequada. No pior dos casos, culpam o Desenvolvimento Ágil por não atender as expectativas.

Ah, antes de fechar o artigo, lembrem-se: a empresa deve ser adaptada à metodologia, e não ao contrário!
Até a próxima semana!


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